ࡱ> KMJ9 .bjbj.b)cl   W********$  - *****:**:::*x**:*:`:* WJ8p<'0W ( : UMA INTRODUO DISCUSSO SOBRE AS FORMAS DE DOMINAO PRESENTES NAS RELAES SOCIAIS SOB PERSPECTIVA DA PSICOLOGIA ANALTICA Roberto Carlos Leal A idia dessa exposio provm, inicialmente, da importncia atribuda por Jung de que o processo de anlise perpassa tambm a histria do indivduo, de sua famlia, povo e pas. Desta forma busca-se conhecer e compreender as imagens originais, a essncia dos arqutipos e o inconsciente coletivo. Algumas vezes sonhos demandam essa compreenso que vo alm das reminiscncias pessoais. Um paciente ao entrar no consultrio carrega consigo valores, cdigos sociais, estando portanto inserido num contexto, em um mundo, participando de uma histria coletiva. o que em linhas gerais James Hillman designou como Anima Mundi. Ao ter a oportunidade de ler o importante livro de Roberto Gambini, Espelho ndio, onde o autor desenvolve, pela leitura de cartas do perodo inicial da colonizao brasileira, uma profunda anlise da formao da alma brasileira, tive como estmulo seguir algumas pistas que apontassem que nossa histria foi e at hoje, permeada por um processo psicossocial que denota no bojo de suas relaes, formas de dominao que compem, por assim dizer, contedos de nossa sombra que precisariam ser enfrentados. Gambini, sob o prisma da psicologia analtica, aponta a necessidade de olharmos cuidadosamente para nossas origens. Destaca que ao invs de descobertos, fomos invadidos. Esta invaso implica que o povo brasileiro em sua origem tambm o comeo do fim de povos que j habitavam nossas terras a cerca de trinta mil anos, com diferentes linguas e formas de organizao social. O paraso, as terras virgens (projeo dos ibricos) eram j habitadas por culturas peculiares. Em termos psicolgicos essa invaso implicou na sobreposio de um estilo de conscincia, de um modo de funcionar, sobre outro que foi negado, desconsiderado em suas razes, seus valores. Segundo Gambini, mitos foram enterrados, com a subjetividade e psiquismo dos povos indgenas. Aqui temos no incio da histria do povo brasileiro uma primeira forma de dominao. A opresso e desconsiderao do conquistador ibrico frente a um povo desconhecido, visto como inferior, selvagem. A colonizao, do ponto de vista psicolgico, acontece processualmente por projees de uma cultura sobre outra, gestos de uma sombra dominadora em ao. Esta dificuldade psicolgica marca nossa origem. Gambini prope resgatar, reintegrar e superar nossa condio dissociada. Somos filhos bastardos de um pai conquistador que nos renega na corte e tambm somos fruto da me ndia que no pode mais retornar a condio de pertencente ao seu povo. Isso demanda um processo psquico profundo. Integrar o que foi desconsiderado: mitos, lnguas, culturas e organizao social. Vale lembrar que o processo de colonizao brasileira tambm se deu atravs da chegada de escravos negros, sendo mais uma vez, cultura, lngua e povo desconsiderados pelos conquistadores ibricos. Se esta nossa herana dos tempos de invaso, creio que em nossa histria tambm observam-se outros elementos constitutivos que confirmam um processo contnuo de criao e recriao de diferentes formas de dominao que caracterizam nossas relaes sociais, desembocando na sociedade contempornea brasileira. O que quero dizer que em nosso psiquismo, na natureza de nossas relaes sociais, constitutivo de nossos valores sociais, a sombra da superioridade do conquistador nos domina atravs de um constante inter-jogo. Mas que pistas indicam a presena deste contedo em nossa sombra? Brevemente gostaria de apontar dois olhares distintos sobre nossa histria. O primeiro, de natureza poltica e scio-econmica, que pude identificar em estudos de Caio Prado Junior e pelo cientista poltico Francisco de Oliveira, acerca dos aspectos internos das estruturas de dominao social existentes em nosso pas. Cabe lembrar que os sditos do Rei de Portugal que se dispuseram a iniciar a explorao agrria no Brasil, o fizeram atravs da cesso de grandes propriedades, caracterizadas pela monocultura (cana de aucar) e com trabalho escravo dos ndios e depois dos negros africanos. Da mesma forma deu-se a explorao e extrao mineral. Riquezas foram transferidas, sem qualquer preocupao ou poltica voltada para a populao local. Entretanto, em linhas gerais, mesmo aps a abolio da escravatura, nosso sistema econmico foi caracterizado pelo custo significativamente baixo de mo de obra frente a concentrao de poucos proprietrios dos meios de produo. O que se verifica a partir da a prevalncia de grandes latifndios e manuteno de padres escravocratas nas relaes de trabalho. Isso se segue at o incio do processo de industrializao nos anos 30, no sculo XX. Entretanto, tais caractersticas permanecem em novos moldes, em conformidade com as novas necessidades das foras produtivas. Relaes arcaicas do campo se reproduzem na concepo moderna de economia atravs da industrializao. Mesmo com a decadncia da burguesia do campo e a ascenso de uma burguesia urbana, por assim dizer, o sistema caminhou para uma concentrao da renda, propriedade e poder. No plano poltico, mesmo com inmeras formas de enfrentamento e resistncia em nossa histria, desde o tempo em que os ndios tornaram-se escravos e lutaram contra os brancos, at hoje prevalecem formas de dominao que caracterizam nossa triste histria de injustia social, ainda que, particularmente, no final do sculo XX, tenhamos evoludo nosso sistema poltico democrtico. O que gostaria de salientar quais sutilezas contidas em nossas relaes sociais, nos dias atuais, que denotam ainda uma certa ambigidade, por assim dizer, expressas por diferenas que implicam em formas de dominao implcitas e por vezes tambm explcitas nas relaes sociais. Pude observar, ao ler um estudo do antroplogo Roberto Damatta a respeito da cidadania na sociedade contempornea brasileira, considerando o universo relacional que a caracteriza, que a suposta igualdade dos cidados sofre uma profunda interferncia pela existncia de uma hierarquia calcada pelas relaes que cada indivduo possui ou no. Como diz Damatta: se o indivduo ou cidado no tem nenhuma ligao com pessoa ou instituio de prestgio na sociedade, ele tratado como um inferior. Dele, ...quem toma conta so as leis. Nesse sentido sentencia: a relao que explica a perverso e a variao da cidadania, ...uma ntida hierarquia em termos de sua proximidade do poder, ou melhor, daquilo que representa o centro do poder. Nesse sentido, constata o autor, isso implica na convivncia de dimenses e esferas de vida com valores diferentes e complementares entre si. Cabe salientar, que Damatta chega a essas concluses a partir do estudo de uma expresso corrente em nossa sociedade contempornea, perguntada de modo agressivo: voc sabe com quem est falando? Essa expresso, segundo o autor, ocorre normalmente na tentativa de romper com alguma regra que teoricamente o indivduo est submetido. Trata-se de uma estratgia ou forma de ser julgado e percebido por outro tipo de conduta e papel. Apesar de reinvidicar a igualdade dos cidados perante as instituies, o desenrolar de fatos que permitem contrariar ou amenizar o indivduo perante a lei geral nessas ocasies, revela um cotidiano da sociedade que implica em mltiplas formas e fontes de cidadania. Pessoas so reconhecidas por suas relaes. O mundo das relaes em nossa sociedade entrecorta ou atravessa por cima das solidariedades naturais de segmentos e classes sociais de forma instrumentalizada, sem, paradoxalmente, estar exclusivamente ligada a uma posio econmica ou convico ideolgica. Talvez por isso, obedecer as leis gerais seja por vezes alvo de chacota ou descaso. Damatta conclui, finalmente, que as instituies sociais brasileiras esto sujeitas a dois tipos de presso: pela presso universalista, que vem das normas burocrticas e legais que as definem como agncia/servio pblico e pelas redes de relaes pessoais a que todos esto submetidos e aos recursos sociais que essas redes mobilizam e distribuem. Queira-se ou no, Damatta em seu estudo, verifica que em nossa sociedade contempornea, alguns so julgados segundo um status superior, sustentado por uma rede de relaes e outros pelo jugo da lei, supostamente universal. Finalmente, em termos psicolgicos, ao constatar que no bojo de nosso universo psicossocial diferentes formas de dominao caracterizam as relaes sociais, considero pertinente salientar dois aspectos. O primeiro diz respeito a nossa herana ancestral, cuja a figura do conquistador nos invade, domina e, antes de mais nada, nos desconsidera. Isso nos remete a questo da alteridade, da considerao pelo outro, implicando por conseguinte, na qualidade dos vnculos, laos (inclusive de solidariedade) que constitumos dia a dia. Afetivamente, a qualidade de um vnculo, possibilita-se ou no pela escuta, tolerncia, por tentar experienciar o lugar da possibilidade do outro. Certamente um exerccio difcil, mas necessrio para considerar o outro. O segundo refere-se a questo da identidade. A identidade, ou identidade social se assim quisermos, uma definio que expressa correspondncia com papis desempenhados, valores sociais, moral, tica, etc. por isso constitutiva de um universo de valores sociais que carregam uma herana histrica combinadas ao jogo social presente. Conforme Hannah Arendt, nenhum valor histrico social, por assim dizer, completamente perdido, podendo emergir por uma premncia de acontecimentos e relaes que se estabelecem no presente. Ao mesmo tempo, a identidade s existe pelo reconhecimento alheio. Da a importncia de compreender e conhecer nossa histria e a aprofundarmos psicologicamente. Nesse sentido, creio, a identidade aproxima-se mais da persona do que da possibilidade da expresso do self. Este ltimo relaciona-se mais a singularidade, possibilidade de ser. Nestes termos, as pistas que busquei apontar, tentam dar conta dos elementos que historicamente conformam uma especificidade do contedo de nossa sombra ancestral. Alm da sombra, nos deparamos frente a todo esse processo, com a persona ou mscara que nos reveste e/ou caracteriza. Referncias Bibliogrficas: C.G.Jung, Memrias, sonhos e reflexes Roberto Gambini, Espelho ndio; Roberto Damatta, A Casa e a Rua; Caio Prado Junior, Histria Econmica do Brasil; Francisco de Oliveira, Crtica a razo dualista; James Hillman, Anima Mundi; Hannah Arendt, Entre o passado e o futuro.    - Trabalho apresentado no IX Simpsio Nacional da Associao Junguiana do Brasil/ outubro 2001 --------. j0JU<CJaJCJOJQJ^JaJ%j0J56OJQJU\]^J56OJQJ\]^J5CJOJQJ\^JaJCJaJ------Y7$$IfT #(#(#634a $[$\$a$7$$IfT"(#(#634a$If$$If]^a$ $$Ifa$$a$$a$ -.---...,1h/ =!"#$%  i8@8 NormalCJ_HaJmHsHtH6A@6 Fonte parg. padro:^`: Normal (Web)dd[$\$.U`. 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